quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

VIVA O DIA NACIONAL DA A MORNA

Confrade e amiga Fátima Betencourt
Muito me reconforta saber que estamos sintonizados em matéria do lugar que a morna ocupa na formação e formatação da identidade caboverdiana. Eu comecei a dar-me conta disto já desde 1978 quando comecei a debruçar-me sobre o estudo da língua caboverdiana. O meu conhecimento foi aprofundando-se, a partir de 1980, quando fui nomeado professor da Estrutura do Crioulo no então Curso de Formação de Professores do Ensino Secundário. Na falta de m...aterial didático, encontrei na morna, e em muitos outros aspetos da tradição oral, um extraordinário campo de análise linguística sobre crioulo.
Na reflexão sobre a candidatura da “Cidade Velha a Património da Humanidade” encontrei na morna e no crioulo a fortaleza da nossa identidade e os elementos decisivos para demonstrar que a crioulidade acrescentou e acrescenta mais-valia ao Património da Humanidade.
Porém, a minha primeira incursão sobre a morna está em crioulo e data de 2008. Trata-se de “Idendidadi di Tres M+C” (Mar e Milho, Morna e Crioulo).
O trabalho consta do meu livro A Palavra e o Verbo, foi apresentado, pela primeira vez na Semana Cultural Caboverdiana de 2008, em Boston, efeméride essa na qual também a Fátima Bettencourt tomou parte.

O texto do meu “post” de hoje foi repescado no trabalho publicado em O Ilhéu de Caboverde, sob o título de “Metáfora do Mar e do Crioulo, do Milho e da Morna, na Idiossincrasia do Ilheu Caboverdiano”. O “post” foi ainda repescado de um outro trabalho (Posfácio a um livro do investigador César Monteiro, em preparação), o qual dei o título de: “Morna Património, Crioulo Matrimónio, no Chão Musical de Manuel d’Novas”.
Quanto à inspiração havida, devo dizer que ela me veio  do próprio tecido cultural caboverdiano onde a identidade dos Três M+C (Mar, Milho, Morna, Crioulo) ganha forma, conteúdo e sentido, mas também a expressão daquilo que melhor nos identifica.
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VIVA O TRÊS DE DEZEMBRO
VIVA A MORNA PATRIMÓNIO DA HUMANIDADE
É no cruzamento de sangue e de culturas, no laboratório das ilhas e no caldeirão do confronto, de encontros e reencontros, que a Morna, a alma da nossa crioulidade, nasceu, cresceu e se vem desenvolvendo, juntamente com outras expressões musicais, também elas, muito importantes.
...
A Morna é, sem dúvida, a metáfora da nossa cultura mestiça, a metáfora do nosso conhecimento, da nossa vivência, da nossa tradição, da nossa filosofia de vida, da nossa antropologia cultural. Se o Milho simboliza o nosso ser e estar físico, se o Mar simboliza o nosso ser virtual, a Morna simboliza o nosso ser espiritual, fruto do casamento entre o Crioulo, o Milho e o Mar.
Todos os dias, horas e segundos, a Morna nasce no violão das nossa ilhas, nas ondas do mar do arquipélago, através de quem fica para poder receber os que chegam, e de quem parte em busca de mais milho, de mais água e de mais luz; através ainda de todos os artistas, criadores ou investidores que viajam para o mundo, com Cabo Verde na bagagem, e que trazem o mundo para Cabo Verde, nas cordas dos seus violões, no ritmo e no compasso de uma nova melodia, nos planos e projetos de mais e melhor desenvolvimento; na arquitetura e na construção de um humanismo mais solidário, mais rico, mais universal.
Extrato de "Metáfora do Mar e do Crioulo, do Milho e da Morna na Idiossincrasia do Ilhéu Caboverdiano", 2019. In O Ilhéu de Cabo Verde, VEIGA Manuel, Universidade Católica, LIsboa, p. 199-207..
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sábado, 9 de novembro de 2019

A MORNA, ANTES DO RECONHECIMENTO DA UNESCO,
JÁ ERA, PARA NÓS, PATRIMÓNIO DA HUMANIDADE
A Cidade Velha foi declarada, em 2009, Património da Humanidade, em grande medida, porque Cabo Verde foi o berço da morna, do crioulo e da nossa crioulidade. É por isso que a decisão da Comissão Técnica do Património Mundial em recomendar a inscrição da MORNA na Lista de Património da Humanidade é apenas um reconhecimento de algo que já é, que já era. Não deixa de ser muito importante essa... recomendação, porém o mais importante é o reconhecimento que quem criou a Morna tem desse ato de criação.
Tudo isto para dizer que há muito que celebrei a Morna como Património da Humanidade. Que todos celebrem, com orgulho e patriotismo, esse filho querido e amado da nossa crioulidade.
Que todos saúdem a pertinente e inteligente recomendação da Comissão Técnica do Património Mundial.
Devo reconhecer que a Morna é, sem dúvida, a expressão original da nossa identidade, o espelho da nossa cultura mestiça, do nosso conhecimento, da nossa vivência, das nossas tradições, da nossa filosofia de vida, da nossa antropologia cultural, em permanente diálogo com o mundo e com a diversidade antropológica. Esta a razão por que todos os dias, horas e segundos, ela nasce no violão das nossa ilhas, nas ondas do mar do arquipélago, através de quem fica para poder receber os que chegam, e de quem parte em busca de mais milho, de mais água e de mais luz; através ainda de todos os artistas, criadores ou investidores que viajam para o mundo tendo Cabo Verde como bagagem cultural, e que regressam, tendo o mundo como encomenda antropológica para ser investida, criticamente, em Cabo Verde, nas cordas do violão, no ritmo e no compasso de uma nova melodia, nos planos e projetos de mais e melhor desenvolvimento, na arquitetura e na construção de um humanismo mais solidário, mais rico, mais universal, critica e conscientemente assumidos; na gramática e na sintaxe da palavra crioula para alavancar o humanismo caboverdiano e o seu desenvolvimento integral e inclusivo.
Com a MORNA, um dos símbolos maiores da nossa crioulidade, a humanidade, seguramente, ficou mais rica.
A todos os que estiveram envolvidos no processo, o meu profundo reconhecimento.
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sábado, 5 de outubro de 2019


VIDA E OBRA DE HENRIQUE TEIXEIRA DE SOUSA

 

1. DADOS BIOGRÁFICOS

         

          Henrique Teixeira de Sousa nasceu na ilha do Fogo, a seis de Setembro de 1919. Neste Setembro de 2019, celebra-se o centenário do seu nascimento.

          Apesar de uma infância marcada pelos conflitos de classe (simbolizada com a metáfora de sobrado, loja e funco), pela partida e regresso do pai veleiro e por algumas fustigações da natureza ingrata, ele consegue fazer os estudos primários na sua ilha natal e terminar os secundários, na ilha de S.Vicente, em 1938.

Após os estudos liceais, parte para Lisboa onde, além da Universidade, frequenta também determinados meios literários e políticos. É assim que - impulsionado pelo seu conterrâneo Júlio Monteiro, futuro autor de Os Rabelados da Ilha de Santiago - pôde, na Capital portuguesa, a partir de 1940, isto é dois anos após a sua chegada, frequentar a cave do Café Portugal, onde estabeleceu contactos com uma plêiade de jovens - a chamada geração de 40 -, os quais, através de uma tertúlia esclarecedora, abriram-lhe os olhos para a situação socioeconómica do mundo e, por conseguinte, da sua própria terra.

         

          A este mesmo «grupo» Teixeira de Sousa introduziu o escritor António Nunes e impulsionou-o a saltar do parnasianismo para o neo-realismo, tendo de isto resultado o já tão celebrado «Poema de Amanhã». Teixeira conta a Michel Laban as circunstâncias do evento:

 

«Estávamos apenas os dois, o Nunes e eu, sentados a uma mesa do Café Portugal aí por volta de 1944-45, quando me ocorreu a ideia de incentivar o poeta a tentar um poema diferente dos lamentos anticlaridosos, uma coisa a puxar para um futuro prometedor, sem fome, sem mortandade maciça, sem escravidão, sem injustiça social, como que a antevisão dum amanhã radioso, que todos, aliás desejávamos. A semente caiu em terreno fecundo. Passados dias, recebo um postal do Nunes a comunicar-me que o poema estava feito. E que no sábado a seguir, no sítio e hora do costume, me mostraria essa sua obra-prima. Nunca mencionávamos os locais e as horas dos encontros por causa da PVDE (polícia política). Quando li o poema, fiquei tão excitado que logo o mostrei aos restantes camaradas. Todos gostaram» (Laban, 1992:186).

 

          No grupo de tertúlia participaria também, o escritor caboverdiano Manuel Lopes, de passagem para os Açores. O autor de Chuva Braba e co-fundador da revista Caridade teria impressionado o grupo, não tanto politicamente, mas sobretudo literariamente.

          A formação cívica e intelectual de Teixeira de Sousa não se restringe apenas às tertúlias da cave do Café de Portugal. A leitura de autores escolhidos e a convivência com professores eminentes são também responsáveis por essa formação, como ele mesmo adianta, na já aludida entrevista:

 

«De entre os pensadores portugueses, António Sérgio foi um dos autores mastigados e engolidos por  mim com imensa satisfação e proveito. Mas quando conheci o Prof. Bento de Jesus Caraça,  constatei que Sérgio já se achava na altura ultrapassado na filosofia política» (Laban, 1992:188).

….

          O meio vanguardista em que vive permitiu-lhe também contactos com o mundo da negritude, particularmente através de Francisco José Tenreiro. Diz ele:

«... aos 21, 22 anos de idade, Tenreiro já havia lido quase tudo acerca  do negro americano em cuja problemática foi beber o elixir da sua NEGRITUDE... Tenreiro foi o primeiro soldado da NEGRITUDE dentro do espaço lusófono (pondo de parte o Brasil)»,  (Laban, 1992:190).

 

          Os contactos com a NEGRITUDE continuariam tarde, por volta de 1954-55, no âmbito de um curso de nutrição que o levou sucessivamente a Marselha e a Paris, e, na Capital francesa, considerada então «cidade das luzes», encontrou-se com o conhecido intelectual angolano, Sr. Mário Pinto de Andrade. Este introduziu-o no ambiente da Universidade de Sorbonne onde, segundo ele próprio diz:

«... travei relações com dezenas de estudantes negros e mulatos das áreas francófonas de África e Caraíbas, e ainda das áreas do Extremo Oriente (Indochina). Todas as tardes, depois dos meus afazeres de bolseiro da FAO/OMS, rumava para o Bd.Saint-Michel ou Saint -Germain-des-Près à procura dos camaradas africanos, martinicanos, indochineses, etc... Conheci nessa altura dois poetas famosos da negritude: Aimé Césaire e Guillen», (Laban, 1992:191).

 

          A peregrinação feita pela «cidade das luzes» não só consolidou os seus conhecimentos sobre a NEGRITUDE, como também permitiu-lhe viver, de forma mais intensa, a problemática da descolonização.


          A sua consciência política - moldada a partir de 1936 pela revista Claridade, nos ano 40 pelo neo-realismo português e o modernismo brasileiro, na década de 50 por uma forte corrente da NEGRITUDE - não podia pactuar-se com a desgovernação das Colónias, em geral, e do Arquipélago, em particular. Por isso, de regresso de Timor, em 1949, assume em S.Vicente, primeiro, e na sua ilha natal, depois, um intenso sacerdócio médico que lhe confere uma grande satisfação interior, mas também muitos dissabores.

          Com efeito sacrificou várias promoções para poder trabalhar para o seu povo. Aliás, a sua aposentação ficou prejudicada na medida em que recusou terminantemente sair de Cabo Verde para poder ser promovido.

 

          A actividade médica exercida com muita dedicação, e mesmo com alguma paixão, conteve, em algum sentido, a sua criação literária e alimentou vários conflitos (de 1949 a 1978, a produção artística é fraca, enquanto a actividade médica é intensa).

          Literariamente falando, o seu primeiro romance - Ilhéu de Contenda - só seria publicado em 1978, quando já na década de 40 tinha anunciado um romance - O Último Veleiro - e que só seria publicado em 1984, com o título de Capitão de Mar e Terra, já que, no dizer de Arnaldo França, o último veleiro - que seria o pai de Teixeira de Sousa - deixou de o ser, quando surgiu um novo período de veleiros, inaugurado por Maria de Soni.

          Sobre esta pausa literária, em benefício da actividade profissional, diria Pedro da Silveira, em entrevista concedida em 3/10/78, ao jornal O Diabo, que Teixeira de Sousa foi levado a adiar os seus sonhos, mas em contrapartida, enriqueceu a sua experiência. Aliás, a obra publicada, de que damos conta no último capítulo, é disto prova.

          Quanto aos conflitos, no exercício da actividade profissional, foram vários e frequentes.


          Os dissabores não se circunscrevem apenas ao período colonial. Também na pós-Independência, ele teve que enfrentar algumas situações pouco cordiais. Antes de mais, discordou de uma das ideias-forças do PAIGC e que defendia a unidade da Guiné e Cabo Verde. O Golpe de Estado de Novembro de 1980, tendo quebrado a unidade que vinha sendo construída, acabou por dar-lhe razão - conclui.


          A defesa das suas ideias, por alguns consideradas retrógradas, catapultou o apeamento do seu retrato e que tinha sido colocado no frontispício da Maternidade, em homenagem não só ao seu desempenho na ilha, mas também à obra que, particularmente com ajuda de emigrantes nos Estados Unidos da América, conseguiu levantar. Da construção e inauguração dessa maternidade, Teixeira dá conta no Ilhéu de Contenda, através da curiosa personagem do jovem médico Vicente Spenser, o qual encarna muitos aspectos autobiográficos do autor.

          O médico que, de alguma maneira, era criticado (pelo menos algumas das suas ideias) na pós-independência, o fora também na época colonial. Teixeira cita dois casos: o de determinado Secretário-Geral que considerou «alarmistas» as suas informações sobre a situação nutricional do país. Houve até tentativas de ser despromovido em 1969, com a transferência de S.Vicente para Santo Antão, embora a mesma não se tenha verificado em virtude das reclamações que fizera junto do próprio Governador e que, impressionado com o seu curriculum, mandou anular o despacho então exarado.

          Um outro caso, este de rejeição, aconteceu em 1949 quando desembarca na sua ilha natal, feito delegado de Saúde, ele que não pertencia à classe dos que possuíam sobrados. Eis como nos conta o sucedido:

«Eu próprio, que fora da ilha, chego a passar por europeu, quando em 1949 ali desembarquei, feito delegado de Saúde, houve alguma reacção em determinado 'sobrado que sobrara dos sobrados soçobrados'. Certa senhora entrou em fúria. Então gritava do alto da sua majestade: Não queremos esse doutorinho de S.Domingos», (Laban, 1992: 174).

         

          Com o tempo, os que lhe tiram razão acabam sempre por lha dar de novo. E ele, sem rancor, aceita a justiça do tempo. Por isso, quando em 1975, após ter prestado trabalho nas sua ilhas durante 24 anos, fixa-se em Lisboa - onde continuou exercendo a sua profissão e a escrever alguns dos seus livros de que daremos conta nos capítulos seguintes - a razão é, tão-somente, familiar. A emigração de conveniência, porém, não esmoreceu o grande amor que sempre dedicou ao seu país, razão por que, frequentemente, o visitava e dele fez o chão privilegiado da sua criação literária.

          A contestação de Teixeira de Sousa abrange também o domínio cultural e linguístico.

          Numa altura em que algumas vozes se levantaram para criticar o «elitismo», o «terra-longismo» e o «barlaventismo» dos claridosos, ele se insurge, tomando partido destes (cf. Russel Hamilton, Literatura Africana, Literatura Necessária, ed. 70, 1984, p. 193).

 

Aliás, em entrevista a João Lopes Filho, ele disse:

«... o movimento da Claridade foi o 'Fiat lux' das letras caboverdianas. Jorrou com aquela impetuosidade própria dos ventos que aguardam o momento exacto, na sequência de condicionalismos humanos especiais e de outros factores menos pré-determinados, mais ocasionais. Claridade foi um momento de ejecção que a todos nos colocou numa órbita de criatividade imperiosa. A vitalidade da sua mensagem evidencia-se ainda hoje através do estilo e do conteúdo dos trabalhos literários recentíssimos», (cf. Ponto & Vírgula, nº4).

 

          Ele que pertence mais à geração de Certeza do que à de Claridade, diz que se esta «correu as cortinas», aquela «abriu as janelas» da moderna literatura caboverdiana. Chegou mesmo a dizer, peremptoriamente:

«Temos de ultrapassar a fase folclórica ou regionalista para não continuarmos espartilhados dentro de um círculo restrito de temas mais que esgotados. Felizmente, os poetas da novíssima geração já se aperceberam da necessidade de semelhante libertação que não é alienação mas antes uma afirmação adulta e vanguardista», (Laban , 1992: 207).

 

           (…)

2. UNIVERSO DA PALAVRA

 

          2.1 - Modus Faciendi: Dois grandes domínios integram o universo literário de Teixeira de Sousa: o conto e o romance. O primeiro é uma espécie de introdução à obra romanesca do autor que conta com vários títulos publicados. Os contos foram também publicados em revistas nacionais e estrangeiras e alguns, num total de dez, foram reunidos e publicados em 1972, num único volume, sob o título de Contra Mar e Vento.

          A arquitectura da obra leva em conta a geografia humana, histórica e temporal particularmente do Fogo, sua ilha natal. Num dos romances - Capitão de Mar e Terra - a ilha de S.Vicente, onde o autor fez o liceu e exerceu a profissão de médico durante algum tempo, serve também de palco da intriga romanesca, com base no húmus do ambiente e nas correntes e contracorrentes do Porto Grande.

          Diz-nos T. de Sousa que o miolo dos seus romances é «baseado sempre em espaço e época reais ... com uma narrativa inventada para não deixarem de ser obras literárias». E isto porque, segundo ele, a literatura se define como:

 

«... a reinvenção ou recriação da realidade através de determinada sensibilidade, e também através de determinada visão nacional do fenómeno humano ( in Magma, nº2, 1988, p. 30).

 

Para o autor, portanto, a literatura tem uma função social, e a lição foi aprendida não só com o Movimento Claridade (1936), mas também com o modernismo brasileiro (1926) e sobretudo com o neo-realismo português da chamada geração de 40.

          Descrevendo a gestação e o «parto» da sua escrita literária ao Prof. Michel Laban (1992:214-2015), ele diz:

«... primeiro surge o clarão duma ideia que logo me encadeia  e perturba. Durante muito tempo esse clarão é só clarão. Não tem nada definido na sua dinâmica, em suma na sua história. Com o andar dos meses ou dos anos, o clrarão vai-se corporizando em facto ou factos, e daí às personagens é um passo. Mas a criação apenas se desencadeia no dia em que consigo segurar o fio da meada, e pela ponta. Segurada a ponta da meada, o novelo começa a desurdir sem dificuldade. Não utilizo esquemas minuciosos como, por exemplo, fazem os arquitectos ao projectarem um edifício. Parto apenas com os contornos do assunto a que me proponho, sei para onde vou e mais nada. O resto é como se estivesse a compor uma canção (conto) ou uma sinfonia (romance)...

Falando em personagens, estas são na sua totalidade enumeradas, nomeadas, caracterizadas física e psicologicamente... são geralmente criadas a partir de pessoas conhecidas, às vezes duas, três pessoas, fundidas numa única personalidade. Posta a obra a andar, estas personagens vão a pouco e pouco criando uma autonomia tal que o autor quase se limita (passe a 'boutade') a segui-las. Elas apossam-se em suma do tema da obra e fazem o resto à maneira delas, quase que à revelia do autor....».

 

          2.2 - Conteúdo:  A obra de Teixeira de Sousa é quase toda ela de cunho histórico e sociológico, havendo também casos de abordagem mais de natureza psicológica.

          A diegética, em grande parte, é enformada por cenários, acções e acontecimentos da época colonial, num horizonte temporal que abrange a infância do autor (nos anos 20), a sua adolescência (na década de 30), a sua juventude (nos anos 40), a sua maturidade (na década de 50 e 60). Os romances Ilhéu de Contenda e Capitão de Mar e Terra são retratos vivos dos conflitos sociais, contradições, angústias e sonhos dessa época.

          A pós-independência (1975...) encontra eco no romance Xaguate, onde o passado e o presente se dão as mãos para a construção de um futuro sem discriminação racial; sem o confronto de sobrados, lojas e funcos; sem partidas forçadas para longínquas paragens; sem o medo nem a ignorância generalizada; sem o autoritarismo do poder; sem a fome nem a mortalidade maciça; sem o naufrágio no mar ou o desamparo em terra.

          Abordagens de carácter intemporal, com um tratamento largamente cultural e psicológico do meio ou das circunstâncias vividas pelo autor, emergem do romance Djunga, o qual, muito mais do que um retrato físico das ilhas, representa a sua interioridade, a sua alma insular, o seu desejo de caminhar.

          Sintetizando o conteúdo da obra de Teixeira de Sousa, através de um dos seus romances mais conseguidos, o estudioso americano, Prof. Hamilton Russel, afirma:

«O romance (Ilhéu de Contenda) é uma saga sociológica, mais ou menos na tradição da ficção memorialista e neo-realista cultivada, nos anos 30 e 40, por autores brasileiros como José Lins do Rego, Jorge Amado e Érico Veríssimo. Embora algo de passadista no seu estilo e concepção... (ele) é, na verdade, a obra longamente esperada. É enfim, o romance do grupo Certeza e, como tal, o seu autor vai além dos prosistas claridosos em matéria de documentação social e na reificação da questão de uma  ordem socioeconómica em trânsito» (cf.  Literatura Africana, Literatura Necessária, vol. I, Ed.70, 1984,  p. 204).

 

          A obra de Teixeira de Sousa pode ser caracterizada como um novelo de múltiplos fios entrelaçados, num chão do passado e do presente do arquipélago, de onde emergem as angústias, dramas, anseios e esperanças do autor e do seu povo. Aliás, ele próprio, na mencionada entrevista ao Prof. Laban, afirma o que se  acaba de expor:

«Posso-lhe dizer que eu teria trazido de Cabo Verde, em 1938, quando vim para o curso de Medicina, a semente dessa preocupação pelos problemas socioeconómicos do meu país. Semente que seria a marca da minha sensibilidade face a tanta           miséria, a tanta fome e mortandade por inanição por mim observadas em Cabo Verde...

Mas conheci ... (também) outro tipo de revolta, esta contra a própria natureza avara das Ilhas, zona geográfica sujeita a longos anos de estiagem... Vim por conseguinte, para Portugal, marcado pelo drama do meu povo, daí a facilidade com que aderi ao vanguardismo político da época» ... (Laban,1992:183-184).

 

          2.3 - Leitura Crítica: Foi sobretudo a partir da edição da colectânea de contos (Contra Mar e Vento) que alguma reflexão sobre a obra de Teixeira de Sousa conhece a luz do dia.

          Se excluirmos o estímulo que recebera do seu mestre Baltasar Lopes quanto ao seu primeiro trabalho publicado no jornal Juventude, em 1936 e o próprio Manuel Ferreira que em 1973 o considerou ficcionista de primeira fila, é Álvaro Salema que inaugura a crítica à obra de Teixeira de Sousa. Eis a leitura que o mesmo faz de Contra Mar e Vento:

« ... Teixeira de Sousa representa um desses pontos imprescindíveis no caminho percorrido pela arte narrativa em Cabo Verde desde os anos 40 (...).Um realismo nítido e certeiro encontrou nele a linguagem enxuta que transpõe sem custo as solicitações estilísticas barrocas quando tendem, como é frequente à exploração verbal dos casos mais impregnados de dramatismo. Realismo social, seguramente, mas sem retórica populista e também sem barreiras erguidas por exclusivismo ideológico» (in AFRICA, nº6, 1979, p. 114).

 

          Quanto a Ilhéu de Contenda, as análises não são coincidentes. O próprio Álvaro Salema que saudou elogiosamente o Contra Mar e Vento, já não fala do primeiro romance de T. de Sousa com o mesmo entusiasmo, embora nele reconheça virtudes:

«A linearidade de estilo e a sobriedade decorrente permanecem como características essenciais do escritor... O seu realismo adensado por minúcias ambientais, alusões a experiências evocadas, referências transitórias de personagens que se cingem em breves perfis, é o realismo que se gera no gosto de contar o vivido tal como foi observado ou experimentado. Não há rebuscamentos psicológicos nem dramatismos efabulados. O romance... tem todo o cunho evidenciado  autêntico. Só que a autenticidade, por vezes, tem o preço de vulgaridade» (in ÁFRICA, nº10, 1980, p. 636).

 

          Outra voz menos generosa para com o Ilhéu de Contenda é a do crítico português Alfredo Margarido. Numa recensão publicada num dos números da revista Colóquio, o mesmo, apesar de prestar homenagem à «respeitável prosa», considera o livro demasiadamente longo e com um tratamento sociológico da história muito desenvolvido.

          Comentando as duas posições acima referidas, Teixeira de Sousa explica:

 

«Considero de facto o conteúdo da minha... obra profundamente grudado às nossas realidades físicas e humanas de sempre. Não consigo fantasiar nada que não esteja inserido na nossa problemática de sobrevivência, dentro de um esquema sociológico que me parece correcto. Se isso é vulgaridade, linearidade, paciência! Prefiro ser lido e compreendido pelo grande público a ser apenas festejado pelos iluminados» (cf. João Lopes Filho, op. cit. nº4, 1983, p . 31).

                   

          Porém, é da Universidade de Reines, em França, através da pena do Prof. Jean-Michel Massa que nos chega uma das grandes defesas da obra do escritor foguense, nos seguintes termos:

«Sem se exigir para Ilhéu de Contenda a aclamação de obra de arte desconhecida, esta obra parece ter as qualidades necessárias para se tornar clássica, se der a este adjectivo alguns dos seus significados habituais: o gosto, a medida, a verosimilhança, o estilo, em resumo, o equilíbrio..., o factor profundidade. (...)

Verdade, mestria, sentido do equilíbrio... são entre outras as qualidades de um a obra clássica de um escritor autenticamente nacional (in Ponto & Vírgula, nº13, 1985, p. 13).

 

          Uma outra voz estrangeira, desta feita a do açoriano Pedro da Silveira que, do seu ponto de vista, Ilhéu de Contenda é:

 

«O romance da ilha do Fogo que precisava de ser escrito e o é por quem a conhece como de lá. Neste particular, e sem perder nada como romance, ficará, parece-me, como um depoimento histórico- sociológico de primeira ordem...» (in O Diabo, de 3/10/78).

 

          A nível nacional, o silêncio à volta da obra de Teixeira de Sousa é notório. Poucas vozes se fizeram ouvir, entre elas a do poeta Arnaldo França e a do próprio autor destas linhas. O primeiro, numa longa entrevista concedida à Rádio Nacional de Cabo Verde, em 1878, depois de um pertinente enquadramento da obra, com algumas importantes informações, de permeio, o que permite uma melhor compreensão da obra, conclui apelando os radiouvintes a procurarem esse livro, já que se trata de «uma das obras chaves, uma das obras mestras, da literatura de Cabo Verde».

 

          Eu próprio, num ensaio que figura em A SEMENTEIRA (ALAC, 1994), subordinado ao título de «A Leitura do Inteligível em Ilhéu de Contenda», analiso aquilo que para ele constitui a semântica fundamental da obra, isto é: A Metáfora do Poder, o Ocaso da Nobreza e a Emergência do Mestiço. A este propósito, em carta de 20/7/88, dirigida ao autor do ensaio, Teixeira de Sousa afirma:

«Bateu o record na leitura feita a Ilhéu de Contenda. Até este momento empunhava o facho o Prof. Jean-Michel MASSA, da Universidade de Reines. Agora, você é o campeão. Não há dúvida que soube ler o que escrevi, e sobretudo entender profundamente a trama social do Fogo na sua dinâmica cultural... Ainda bem que é um nacional a elaborar um ensaio desta natureza. Olhe que não sei de quem fizesse melhor. Finalmente ficou saciada em mim a sede duma interpretação ao nível da minha proposta...».

 

          Fiz ainda uma leitura do «simbólico» em Xaguate, de T. de Sousa. Na introdução que precede à análise, afirmo:

 

«A densidade da mensagem plural do autor de Xaguate transparece, particularmente, na esfera do simbólico. O histórico e o social da ilha são esculpidos com a força das imagens que brotam ou emergem das profundezas do ser do autor-narrador, da floresta virgem do inconsciente próprio ou colectivo, da sua longa experiência vivida, quer como actor, quer como espectador, tanto dentro como fora da ilha-laboratório.

          (...)

Através do espaço e do tempo, o autor de Xaguate leva-nos a entrar no laboratório da história transcorrida e em curso, donde emerge o ser da ilha em todas as suas manifestações, mas vingando sempre o hoje e o amanhã. É por isso que da ilha-prisão, da ilha-madrasta e mártir se passa à ilha-escola, à ilha-mãe, à ilha-sonho».

 
          A obra de T. de Sousa carece ainda de muitas outras leituras. O tempo certamente lhe fará justiça, já que ela mais do que uma simples história da sua ilha e do seu tempo é a saga do seu povo e do seu arquipélago. Daí a sua importância e a atenção que deve merecer.

 

3. PERCURSO LITERÁRIO

         
          Neste capítulo pretende-se apresentar, de forma esquemática, a cronologia dos principais trabalhos de Teixeira de Sousa.

          Embora tenha publicado alguns estudos de cunho científico no jornal O Médico, e a actividade médica lhe granjeara o «Prémio de Medicina Tropical», em 1956, o percurso aqui referido é exclusivamente literário. Porém, antes de o fazer, vejamos como Teixeira de Sousa vive essas duas facetas tão importantes do seu existir. Ele mesmo nos diz:

 

«Não é fácil conciliar duas paixões. É uma luta de tracção interior que por vezes nos esquarteja e nos coloca na incómoda situação de duplo de nós próprios. No meu caso, porém, o fenómeno não provoca qualquer grau de esquartejamento, porquanto médico, sou-o todos os dias; escritor, só de longe em longe, quando me dá o cio de escrever. Nem o médico perturba o escritor, nem este  aquele» (in Ponto & Vírgula, nº4, 1983, p.31).

 

          O exercício da medicina e da escrita são duas paixões cuja conciliação, embora difícil, fora conseguida por T. de Sousa. Talvez seja esta uma das razões por que tem neste momento uma obra vasta e que continua fecunda. Na já aludida entrevista concedida a João L. Filho, ele declara que «... Nós os da velha guarda, precisamos de produzir, não só para emular como também para ficarmos autorizados a exigir mais da juventude».

          Não há dúvidas de que T. de Sousa, por tudo o que produziu no campo literário, é já uma autoridade não só para a juventude como ainda para a «velha guarda». O quadro que a seguir se apresenta é disto prova:

                                                                                

PRODUÇÃO LITERÁRIA: 1936-1992

1936

Domínio: Conto; Título: Chuva qu'é nos governador; Edição: Jornal Juventude dos alunos do Liceu de S.Vicente. Observação: Ingénuo, mas já com influência claridosa, no dizer de Arnaldo França e  de M. Ferreira. O autor tinha então 17 anos .

1940

Domínio: Ensaio; Título: Estrutura Social da Ilha do Fogo; Edição: Revista Claridade, nº5, 1947; Observações: Tema desenvolvido posteriormente no romance Ilhéu de Contenda.

1942

Domínio : Ensaio e Conto; Título: a) A Propósito do Negro, b) Florêncio virou Lobisomen; Edição: Jornal estudantil Horizonte que se publicava em Lisboa, de natureza cultural; Observações: T. de Sousa foi co-fundador desse Jornal. Publicaram-se apenas 3 números.

1942

Domínio: Conto; Título: Noite de Guarda Cabeça; Edição: Antologia de Novos prosadores (I vol); Observações: Organização de Francisco José Tenreiro.

1942

Domínio: Conto; Título: Calmaria; Edição: idem (II vol); Observações: idem.

1942

Domínio: Poesia; Título: Sueste; Edição: Antologia de Modernos Autores Portugueses; Observações: Com o pseudónimo de Biloca José da Cruz.

1943

Domínio: Artigo; Título: Da Claridade à Certeza; Edição: Revista Certeza nº2; Observações: De passagem por S.Vicente, em gozo de férias.

1945 (e 1960)

Domínio: Conto; Título: Dragão e Eu; Edição: Revista Vértice, 1º número, 1945, Coimbra; Antologia de Ficção Caboverdiana, Contemporânea, organizada por B. Lopes, 1960.  Observações: Diz o autor que se trata do seu 1º conto realmente conseguido do ponto de vista da forma (in jornal África de  6/1/88).

1949 (entre 49 e 53)

Domínio: Poesia; Título: Buli-Mundo; Edição: Boletim Cabo Verde; Observações:

No Boletim Cabo Verde, publicado na Praia, de 1949-1962, T. de Sousa tem várias colaborações.

1958

Domínio: Ensaio; Título: Sobrados, Lojas e Funcos; Edição: Revista Claridade, nº8; Observações: Tema desenvolvido posteriormente nos romances Ilhéu de Contenda e Xaguate.

1972

Domínio: Contos; Título: Contra Mar e Vento; Edição: Colectânea de dez contos; Observação: Os contos são: Menos Um; A Família de Aniceto Brazão; Termo de Responsabilidade; Dragão e Eu; Raiva; Barrilzinho de Azeite; Na Corte d'El Rei D. Pedro; O Protesto; Encontro; Jocasta.

1978

Domínio: Romance; Título: Ilhéu de Contenda; Edição: Editorial O Século; em 1984 volta ser publicado no Brasil pela  Editora Ática; Observações: Ganhou o prémio Claridade atribuído em 1988 pelo Ministério da Cultura de Cabo Verde.

1984

Domínio: Romance; Título: Capitão de Mar e Terra; Edição: Edições Europa América; Observações: Ganhou o prémio Jorge Barbosa atribuído pelo Ministério da Cultura de Cabo Verde, em 1988. Ganhou o prémio Fialho de Almeida atribuído em 1984 pela Sociedade Portuguesa de Escritores Médicos.

1984

Domínio: Comunicação; Título: A Igreja e a Literatura em Cabo Verde; Edição: Acta do Colóquio Internacional sobre: Les Littératures Africaines de Langue Portugaise; Observações:  Organização do Centro Cultural da Fundação C. Gulbenkian, em Paris.

1987

Domínio: Romance; Título: Xaguate; Edição: Europa América.

1989

Domínio: Comunicação; Título: A Problemática da Língua na literatura cabo-verdiana; Observação: Foi apresentada por ocasião do 1º Congresso de Escritores de Língua Portuguesa, realizado em Lisboa.

1990

Domínio: Romance; Título: Djunga; Edição: Europa América.

1992

Domínio: Romance; Título: Na Ribeira de Deus; Edição: Europa América.

1994

Domínio: Romance; Título: Entre Duas Bandeiras;

2005

Domínio, Romance: Oh Mar de Túrbidas Vagas

 

                                             

                                                                                                 Manuel Veiga    

 

NB: Morre a 06/03/2006